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Puta Que os Pariu!*

Fausto LobãoEm defesa de João Soares.

A pergunta começou a ganhar forma ainda antes da demissão. No que é que ao certo se diferenciam as históricas e famosas bengaladas de Eça, das «saudáveis bofetadas» de Soares?

Noutros tempos, os homens sacariam de um revólver para um duelo. Nestes tempos, em que outras formas não mortais poderiam manter a virilidade no espaço público, aqui d’el rei, que o ministro disse isto e aquilo.

Portugal perdeu, assim, um dos melhores ministros da cultura que jamais teve.

Presente, constante, conhecedor das matérias e dos mais importantes elementos da cultura, João Soares esteve envolvido nalgumas polémicas, mas mostrou ser um homem à altura para o cargo que acabou de deixar. Não lhe perdoam ser como é, neste país de putas ofendidas (já que às virgens, apesar da original expressão popular, ainda se pode conceder alegarem querer manter esse estado para invocar ofensa, às putas, a não ser que arrependidas, dificilmente se aceita tal).

Envolvido ao longo de muitos anos em supostos negócios de que muitos o acusam, quando não fruto de invejosas calúnias, todas sem qualquer prova que as sustente, Soares filho soube sempre estar à altura dos desafios políticos com que constantemente se depara.

Foi à luta a Lisboa. Foi à luta a Sintra. Foi à luta até ao Algarve. Nunca desistiu. Nunca virou a cara. Soube sempre lutar, ainda que fosse para perder. No fim, acabou traído pelo próprio chefe, que nunca morreu de amores por ele e que acabou por dele rapidamente se livrar.

Tem lados negativos? Possivelmente, mas tem positivamente muita coisa a seu favor. E para não alongar, que a revolta é muita, indico apenas uma. Uma que é frequentemente ridicularizada quanto deveria ser, pelo contrário, justamente valorizada: a sua alegre e sempre constante maneira de encarar o mundo.

Em 2004, na noite das eleições para secretário-geral do Partido Socialista, corrida que disputou com José Sócrates e Manuel Alegre e na qual obteve apenas 3,9% dos votos (contra os 78,6 % do primeiro), numa altura em que as sondagens à boca das urnas que já anunciavam o resultado final, confrontado que foi sobre a sua relação com o novo líder socialista, João Soares respondeu o seguinte (cito de cor): «Tenho uma óptima relação comigo mesmo.»

Sabia que tinha perdido. Estava condenado a felicitar o vencedor em momento próprio (se é que não o tinha já feito), mas confrontado pelos jornalistas saiu-lhe a resposta mais extraordinária que poderia ter dado.

Dou outro exemplo. Depois de ter perdido a Câmara de Lisboa, e no meio da espuma dos dias, vieram a público notícias que davam conta de ter escrito dois livros publicados no estrangeiro. O humor apareceu logo no nome dos pseudónimos com que assinou as obras: Hans (João) Nurlufts (Só Ares) e John (João) Sowinds (SoVentos). Confrontado sobre a autoria das obras, não confirmou, nem desmentiu, admitindo no entanto que poderia ser verdade, dado estar «alfabetizado desde a mais tenra infância».

Aqui o caso é similar (como ao longo destes anos): Soares sabia que as obras tinham sido escritas por ele. Estava condenado a confirmar a autoria. Mas confrontado pelos jornalistas, voltou-lhe a sair a resposta mais extraordinária que poderia ter dado.

Não é que sejam apenas as tiradas espirituosas que fazem um bom político. Nem que Soares tenha sido absolutamente feliz durante o seu curto mandato. Mas aqui em causa não estiveram quaisquer opções políticas (como no caso do CCB), mas antes um crime que há muito deveria estar erradicado da nossa praça: não o direito à ofensa, mas o direito a se ser como se é.

Durante estes meses em que esteve como ministro, João Soares foi apenas isso: aquilo que sempre foi.

E é isso que não lhe perdoam.

*Puta Que os Pariu! é o nome da biografia de Luiz Pacheco, escrita por João Pedro George. A ligação do escritor com Soares foi pouco mais que pouca. Mas de certeza que se fosse vivo, Pacheco comentaria desta forma toda esta questão.

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